Pelo Natal encontrei um livro da
Editora Civilização com o nome da "Contos Que O Vento Soprou" - Texto de Teresa Saavedra
Entre os muitos contos maravilhosos que o livro trás, um deu-me um enorme prazer ler para a minha filha. Dou por isso, como bem empregue o tempo em o transcrever para aqui, esperando que possa aguçar o interesse dos leitores pelos outros contos do livro, também eles fantásticos.
O Conto que vos deixo chama-se:
A Fadazinha
Naquele dia, quando a fadazinha acordou, já o Sol ia alto. Sonhara toda a noite que alguém a levava à desfilada até um grande castelo no pico de uma montanha negra e que lá ficara durante tempos infindos, numa sala gelada e coberta por grandes panos escuros. Por isso, levantou-se, atordoada e estranha, apesar de, como sempre, se encontrar na sua cama de ervas, protegida pela sombra do velho carvalho que a conhecia desde que ela nascera. E, como era Primavera, uma camada de pequenas flores nascidas da erva rasteira durante a noite dava-lhe os bons dias, virando as minúsculas corolas para ela.
Nunca na sua vida sonhara e sempre fora uma fadazinha sem cuidados. Não possuia varinha de condão mas também nunca precisara dela. Como não conhecia as suas irmãs, nem sequer sabia que, para pôr em prática os seus desejos, era costume das fadas possuirem uma. Ela não sabia o que era desejar. Vivia em estado de permanente leveza. Na realidade, mesmo o próprio corpo, não tinha o minimo peso. Vestia uma túnica de renda tecida pelas aranhas e usava o cabelo enfeitado por escaravelhos minúsculos e cintilantes. E ao Sol, toda ela brilhava como um pequeno raio de luz. Durante os belos dias de Verão só brincava e voava. Ou deixava-se dançar, como uma folha de árvore embalada pelo vento. Quando vinha o frio do Inverno, abrigava-se numa toca de esquilo e dormia sem parar até que o calor voltasse. Por isso, apesar do estremeção da noite, nem se lembrou que sonhara e, durante todo o dia, voou pela floresta. Passou a manhã no riacho a dançar com as libelinhas, alimentou-se do mel das colmeias, dormiu a sesta num ninho de pássaros abandonado e, ao fim do dia, brincou na crista das montanhas, espreitando o Sol, que, vermelho de cansaço e de sono, se afundava devagarinho. Quando voltou para o velho carvalho já fazia escuro, e cabeceava. Adormeceu imediatamente, toda enroscada debaixo de uma camada de folhas.
Já era quase meio-dia quando abriu de novo os olhos. A primeira coisa que fez foi apalpá-los para se certificar de que estavam bem abertos e olhar atentamente as ervas e as sucessivas camadas de folhinhas novas nascidas durante a noite do velho carvalho. Tornara a sonhar, o mesmo sonho e tudo à sua volta lhe parecia agora estranho. Nada mudara; ela é que nunca reparara em nada. Via tudo como se fosse a primeira vez. Olhou as nuvens cinzentas que se aproximavam e espantou-se quando um doce chuveiro se derramou à sua volta. Pela primeira vez reparou que as folhas que a coriam eram diferentes umas das outras e que a água da chuva as tornava extraordinariamente verdes e brilhantes. Reparou na quantidade de ervinhas que atapetavam o chão, nas minúsculas flores azuis e amarelas que se abriam mesmo junto dela, nos bichinhos que circulavam com esforço por entre a água da chuva. Uma grande gota caiu-lhe em cima do vestido. Delicadamente, tocou-lhe. Não sentiu nada. Abriu a mão com a palma voltada para cima e nela recolheu um pouco de chuva. Mas tornou a não sentir nada.
Quando o Sol voltou de novo, chegaram três meninas que deram as mãos e rodopiaram à volta do carvalho até se cansarem. Depois sentaram-se no chão de pernas cruzadas, a arfar e a rir, o vestido enfolado entre as pernas peludas. Desembrulharam um papel e de lá de dentro sairam pão e bolachas. Depois de comerem esticaram-se na erva a olhar para o céu. Até que uma delas se levantou de um salto e disse:
-Vamos jogar ao Queima.
Com um pau, desenhou formas na terra.
-Queima? Queima? - gritavam as três dançando por entre os riscos.
A fadazinha, empoleirada no ramo mais alto do carvalho, vira tudo. E quando finalmente partiram, a correr e a rir, reparou que o chão ficara coberto de migalhinhas. Cheia de curiosidade, voou do ramo até ao chão e levou um grão de farinha à boca. E depois outro e outro. Mas não lhe soube a nada. Nem chegou sequer a sentir a textura rugosa dos pedacinhos de pão. De repente veio-lhe à ideia o ar contente das meninas e ficou espantada por não entender tamanha alegria. Tão espantada que decidiu procurá-las e tomou o caminho da aldeia mais próxima.
Encontrou uma jovem mãe que seguia na mesma direcção, como o seu menino muito aconchegado num xaile de lã. Enquanto andava, sorria, maravilhada, para o filho. A fadazinha pôs-se na sua frente, fazendo gestos. Mas a jovem mãe passou adiante, tapando a cara da criança por causa do importuno raio de luz. Ficou tão triste, a fadazinha, que só muito tarde reparou que um grupo de rapazes pedalava na sua direcção, a toda a velocidade das suas bicicletas. "Vou ficar onde estou", pensou. "Vão passar por cima de mim e por isso é impossivel que não me vejam!" Mas os rapazes repararam apenas num raio de luz a brincar nos espelhos das suas bicicletas.
Por fim, a fadazinha viu aproximarem-se três lavradores que chegavam do trabalho. Traziam o sacho ao ombro e tinham as mangas arregaçadas. Da sua testa pingavam gotas de suor, estavam mal barbeados e as suas botas deixavam um rasto de terra por onde passavam. Entraram em casa. Uma mulher chegou com uma travessa a fumegar, outra com jarros e copos. Sentaram-se todos à mesa, comeram com avidez. As suas vozes sonoras, as suas gargalhadas, ouviam-se do outro lado da rua.
Foi então que qualquer coisa de misteriosa estalou dentro da fadazinha. Sentiu um grande calor. Saltou para cima da mesa e pegou num copo cheio. Quis beber, quis entornar o copo, quis que o copo se estilhaçasse aos bocadinhos no chão. Mas nada aconteceu. Os lavradores continuaram a a beber e a conversar. Apenas um deles se levantou, foi espreitar o Sol e disse:
-De repente, tanta luz?
Nessa noite a fadazinha foi deitar-se desesperada. E acordou de madrugada, a chorar, sem se dar conta de que chorava.
-Afinal o que sou eu? - exclamava por entre soluços. - Uma sombra? Um sonho? Um espirito sem corpo? Donde venho? Onde começa a minha história?
De repente fizera-se uma noite muito escura dentro da sua cabeça. E do carvalho, olhava, desesperada, até onde a sua vista podia alcançar, tentando entender, tentando sentir. Olhava com atenção os montes, os vales, o rio, as aldeias aninhadas na neblina. E pensava que, dentro de cada casa, vivia gente que, naquele momento, acordava. A seguir iriam sentar-se juntos para beber grandes canecas de leite, mastigar pão. Depois os homens iriam para o trabalho enquanto as crianças ajudariam as mães a tratar da casa, antes de irem para a escola. Talvez tivessem um gato. Como ela gostaria de ter um gato para poder tratar dele! Como ela gostaria que lhe dissessem adeus antes de partir para a escola! Sentar-se a uma mesa, comer e beber, escrever num caderno, fazer um desenho, andar de bicicleta!
E, pela primeira vez, sentiu-se muito sozinha. O seu desgosto foi tanto que um pequeno, um minusculo laguinho se formou aos seus pés com a àgua de tanta lágrima. Chorou tão intensamente que nem sequer se lembrou de que as fadas não choram nunca. Então deu-se contr de que todo o corpo lhe doía da posição em que dormia, em cima da terra, unicamente coberta pela camada de folhas. E sentia a humidade do amanhecer entranhar-se-lhe no corpo. Foi quando reparou que um rapazinho estava parado à sua frente e a olhava com atenção.
-Olá - disse o rapaz. - Dormiste aqui, toda a noite? Não tiveste frio?
Incrédula, a fadazinha sentou-se na terra.
Olhou o rapaz, depois olhou atentamente à sua volta. Sentiu o vento na cara. Esfregou as mãos uma na outra e sentiu que estavam frias. Pela primeira vez reparou que tinha pés e estavam calçados de peúgas e sapatos. Então, a medo, apalpou o próprio corpo. No lugar da túnica de renda feita de teia de aranha, tinha agora um vestido de algodão azul. A seguir apalpou a cabeça. Estava coberta por uma espessa cabeleira apanhada numa trança. Involuntáriamente encolheu um dos joelhos porque lhe doía. Tinha um enorme arranhão. E perante o espanto do rapaz, a fadazinha sorriu-se. Ficou ainda durante muito tempo a sorrir-se. Por fim levantou-se, deu a mão ao rapaz e partiram juntos para a aldeia.